É uma coisa estranha este verão E no entanto ia jurar que estive aqui Não me dói nada, não. A tia como está? Claro que vale a pena, por que não? Sim, sou eu, devo sem dúvida ser eu Podem contar comigo, eu tenho uma doutrina Não é bonito o mar, as ondas, tudo isto? Até já soube formas de o dizer de outra maneira Há coisas importantes, umas mais que as outras Basta limpar os pés alheios à entrada e só mandarmos nós neste templo de nada E o orgulho é a nossa verdadeira casa Nesta altura do ano quando o vento sopra sobre os nossos dias, sabes quem gostava de ser? Não, cargos ou honras, não. Um simples gato ao sol, talvez uma maneira ou um sentido para as coisas Ó dias encobertos de verão no meu país perdido mais certos do que o sol consumido nos charcos no inverno, estas ou outras formas de morrermos dia a dia como quem cumpre escrupulosamente o seu dia de trabalho Não eras tu, nem isto, nem aqui. Mas está bem, estou pelos ajustes porque sei que não há mais Pode ser que me engane, pode ser que seja eu e no entanto estou de pé, rebolo-me no sol, sou filho desta terra e vou fazendo anos pois não se pode estar sem fazer nada Curriculum atestado testemunho opinião... que importa, se o verão mesmo é uma certa estação? Escolhe inscreve-te pertence, não concordas que há cores mais bonitas do que outras? Sou homem de palavra e hei-de cumprir tudo hão-de encontrar coerência em cada gesto meu Ser isto e não aquilo, amar perdidamente alguém alguma coisa as cláusulas do pacto Isto ou aquilo, ou ele ou eu, sem mais hesitações Estar aqui no verão não é tomar uma atitude? A mínima palavra não será como prestar em certo tipo de papel qualquer declaração? Há fórmulas, bem sei, e é preciso respeitá-las como o gato que cumpre o seu devido sol São horas, vamos lá, sorri, já as primeiras chuvas levam ou lavam corpos caras Sabemos que podemos bem contar contigo em tudo Amanhã, neste lugar, sob este sol e de aqui a um ano? Combinado Não achas que a esplanada é uma pequena pátria a que somos fiéis? Sentamo-nos aqui como quem nasce Será verdade que não tens ninguém? Onde é o teu refúgio, o sítio de silêncio e sofrimento indivisível? É necessário Vais assim. Falam de ti e ficas nas palavras fixo, imóvel, dito para sempre, reduzido a um número. Curriculum cadastro vizinhança Acreditas no verão? Terás licença? Diz-me: seria isto, nada mais que isto? Tens um nome, bem sei. Se é ele que te reduz, aí é o inferno e não achas saída Precário, provisório é o teu nome Lobos de sono atrás de ti nesses dez anos que nunca conseguiste e muito menos hoje Espingardas e uivos e regressos, um regaço redondo - o único verdadeiro espaço, o sabor de não estar só, natal antigo, o sol de inverno sobre as águas, tudo novo, a inspecção minuciosa de paúis, de cômoros, marachas Viste noites e dias, estações, partidas E tão terrível tudo, porque tudo trazia no princípio o fim de tudo A morte é a promessa: estar todo num lugar, permanecer na transparência rápida do ser E perguntar será para ti responder Simples questão de tempo és e a certas circunstâncias de lugar circunscreves o corpo. Sentas-te, levantas-te e o sol bate por vezes nessa fronte aonde o pensamento - que ao dominar-te deixa que domines - mora Estás e nunca estás e o vento vem e vergas e há também a chuva e por vezes molhas-te, aceitas servidões quotidianas, vais de aqui para ali, animas-te, esmoreces, há os outros, morres Mas quando foi? Aonde te doía? Dividias-te entre o fim do verão e a renda da casa Que fica dos teus passos dados e perdidos? Horário de trabalho, uma família, o telefone, a carta, o riso que resulta de seres vítima de olhares Que resto dás? Ou porventura deixas algum rasto? E assim e assado sofro tanto tempo gasto |